Tem um movimento acontecendo no mercado que, à primeira vista, parece distante da carreira jurídica. Fundos de venture capital investindo bilhões em empresas em que a IA é o motor da operação, e não apenas o produto. Estruturas cada vez mais enxutas, alcançando resultados que antes exigiam times e escalas de aprovação.
Um dado de 2025 resume essa direção: startups de IA captaram 61% de todo o venture capital global, segundo análise da OCDE com dados da Preqin. Ou seja, o capital está indo para quem descobriu como gerar resultado com poucas pessoas e muita tecnologia.
Você pode estar se perguntando o que isso tem a ver com o jurídico, ou com alguém que passou anos construindo profundidade técnica em um tema. Para entender essa relação, vale começar por uma pergunta que parece ser de outro assunto. Por que a estrutura de senioridade funciona do jeito que funciona?
A lógica das camadas de carreira
A lógica de camadas, aprovações e coordenação nasceu para um mundo em que construir era caro e lento. Se cada iniciativa custava semanas de trabalho de várias pessoas, era preciso alguém para revisar, aprovar e reduzir riscos antes de qualquer coisa sair do papel.
No jurídico não foi diferente. O caminho para crescer (quase) sempre teve uma única direção. Você começa desenvolvendo cada vez mais conhecimento técnico e fica muito bom no que faz. Na sequência, cresce assumindo a gestão de pessoas. Vira quem coordena, quem revisa o trabalho dos outros, quem responde por uma equipe, quem escala.
Só que, quando apenas uma pessoa consegue, em horas, testar uma ideia, a conta tende a mudar. A camada que existia para reduzir todos os riscos antes de algo sair do papel começa a pesar em tempo de decisão, ação e reação em um mundo que tudo acontece mais rápido do que nunca. É justamente nessa camada que a IA vem enxugando em vários setores.
Aí mora o incômodo que sustenta este texto. E ele vem na forma de uma pergunta honesta, sem resposta pronta: se o mercado começa a premiar o impacto individual de quem constrói muito com pouca gente, o que acontece com as carreiras?
Está nascendo um novo tipo de crescimento
O que está surgindo é um novo tipo de crescimento: um caminho em que a pessoa não evolui assumindo mais pessoas, mas gerando mais impacto, conduzindo sozinha o que antes exigia um time inteiro. No jurídico, isso soa quase estranho de dizer em voz alta, porque às carreiras, em sua maioria, sempre foram construídas na direção oposta: você cresce, e crescer significa passar a responder por pessoas.
Os sinais já existem. Ainda não sabemos qual será a velocidade dessa transformação provocada pela IA no jurídico, mas ignorá-los talvez seja mais arriscado do que observá-los. Porque, curiosamente, isso já tem nome no mercado: High-Impact Individual Contributor, ou HI-C, um profissional bastante sênior, sem ninguém subordinado a ele, capaz de conduzir um projeto da ideia inicial até um resultado concreto de negócio, de ponta a ponta.
O caso mais comentado ultimamente é o da Elena Verna, líder de crescimento da Lovable, uma startup movida por IA. Ela abriu mão de um cargo de gestão para voltar a atuar como contribuidora individual e entregou sozinha um projeto que antes exigiria um time. O cargo dela não existe no organograma de um escritório ou de um departamento jurídico, mas a lógica por trás dele já bate na porta.
E isso já é possível
“Conduzir a esteira inteira” ainda soa como discurso até você entender por quê. Antes, isso era simplesmente impossível.
Pense em uma carteira de contencioso: ela costumava exigir várias mãos, e não por acaso. Alguém em início de carreira fazia o cadastro; um advogado mais júnior analisava a petição inicial e mapeava os documentos necessários para a estratégia; um pleno acompanhava o resultado e o registrava em um controle para medir o impacto de cada defesa sobre o pedido; um sênior aprovava a linha de defesa; e, em um mundo ideal, um analista de dados transformava tudo isso em visões que mostravam, em números, o que aquele fluxo produzia.
Várias pessoas, não porque o caso exigisse vários julgamentos jurídicos diferentes, mas porque cada camada era inacessível para quem estava fora dela. Ninguém conseguia atravessar todas essas disciplinas sozinho. É exatamente essa barreira que a IA no jurídico começa a derrubar. Ela dissolve as camadas de execução e as disciplinas adjacentes, permitindo que uma pessoa que já tem o julgamento de um profissional sênior atravesse essas fronteiras técnicas com autonomia.
O que ela não dissolve é o julgamento. Aprovar a estratégia de defesa continua sendo a parte insubstituível, e é justamente isso que torna essa pessoa a condutora da esteira: não o que a IA faz por ela, mas o que só ela é capaz de fazer.
A mudança, então, não é “um profissional mediano agora faz o trabalho de cinco”. É que a senioridade, que antes se provava coordenando cinco pessoas, passou a poder ser demonstrada conduzindo o processo inteiro, com o julgamento no centro e a tecnologia cobrindo o que, antes, exigia mais uma mão.
IA no jurídico: o impasse que o Direito ainda não resolveu
Claro, o mercado jurídico ainda se distingue bastante de uma startup de tecnologia. Em uma empresa nativa de IA, esse arranjo acontece com naturalidade; no jurídico, ainda não exatamente. A trilha de crescimento que existe, em sua maioria, ainda termina na gestão de pessoas.
E é por isso que a pergunta não tem resposta imediata. O jurídico pode abrir essa trilha, impulsionado pela mesma lógica que já mudou outros setores, ou pode demorar, porque a estrutura de senioridade jurídica é antiga e tem suas razões para existir.
O avanço da IA no jurídico torna cada vez mais difícil assumir que a única forma de crescer é a de sempre. Então, fica a reflexão: você está construindo a carreira para ser a pessoa que coordena a esteira, ou para ser a pessoa capaz de conduzir a esteira inteira? Porque, pela primeira vez, essas duas coisas deixaram de ser a mesma.
| Para o líder do outro lado O profissional mais técnico do seu time talvez não queira, nem precise, virar gestor para crescer. Se a única trilha de reconhecimento da sua estrutura é assumir a gestão de pessoas, o risco é empurrar quem gera mais impacto sozinho para um caminho que não é o dele, ou perder esse profissional. Vale um exercício: convide quem tem alto potencial a conduzir uma demanda completa, do início ao resultado, e não apenas a parte técnica que já domina. |
Do hype ao método: o que você pode fazer agora
A ideia é treinar o olhar de quem conduz um processo inteiro, e não apenas uma etapa técnica dele. Se você quer começar a aplicar a IA no jurídico de forma mais estratégica, estes prompts podem ajudar a ampliar sua visão sobre processos, impacto no negócio e tomada de decisão.
Comece ainda esta semana
| 1. Enxergue o impacto no negócio, e não apenas o fluxo jurídico. Use este prompt: “Sou responsável por [sua etapa técnica] dentro de um processo maior, por exemplo: [descreva a jornada, como um contrato que nasce, é negociado, aprovado e se torna uma obrigação; uma demanda que entra, é triada e vira estratégia; ou um fluxo de aprovação que passa por várias áreas].Me ajude a enxergar além da minha parte: como esse processo impacta o negócio lá na ponta? Onde ele gera custo, risco, receita ou tempo para a empresa ou para o cliente? Quais decisões nesse fluxo afetam as métricas que a liderança acompanha? Como eu traduziria o meu trabalho nesses termos?” |
Nos próximos meses
| 2. Descubra onde a IA cobre o que não é sua especialidade. Use este prompt: “Se deixasse de executar apenas a minha etapa e passasse a conduzir o processo inteiro: [descreva do início ao fim]. Dentro dele, [tais partes] são a minha especialidade, mas [tais outras] dependem de conhecimento que não domino (dados, tecnologia, redação de outra natureza, articulação com outras áreas).Me ajude a identificar, com honestidade: em quais dessas etapas, fora da minha especialidade, a IA já me entrega uma qualidade mediana suficiente para eu conduzir sozinho? Onde o mediano não basta e eu ainda preciso de um especialista humano de verdade? O que eu precisaria aprender para cobrir o restante?” |
Para desenvolver ao longo da carreira
| 3. Desenhe como você conduziria o processo de ponta a ponta. Use este prompt: “Quero me preparar para conduzir sozinho, do início ao resultado, um processo que hoje passa por várias mãos: [descreva a jornada completa].Me ajude a desenhar esse fluxo inteiro sob a minha condução: cada etapa da ideia à entrega; onde a IA me apoia nas partes que não são a minha especialidade; e, sem abrir mão disso, quais são os pontos que exigem validação humana de outras áreas, por questão de segurança, sigilo ou governança, antes de avançar. Quero enxergar o que significa, na prática, ser responsável pelo processo inteiro, não só por um pedaço dele.” |