A IA no jurídico está acelerando a forma como profissionais iniciam suas carreiras, especialmente entre os mais jovens. O uso da IA como atalho cognitivo pode impactar a construção de base técnica e o desenvolvimento do pensamento crítico. Nesse cenário, soft skills e capacidade analítica tornam-se diferenciais essenciais. Para líderes, o desafio é desenvolver times sem comprometer a operação, promovendo aprendizado a partir das entregas do dia a dia.
Iniciamos hoje uma série de sete publicações, que tem por objetivo quase pessoal apoiar carreiras e gestores, trazendo mais clareza e método para tantas abas que se abrem quando falamos sobre a aplicação da IA no jurídico no dia a dia das operações jurídicas.
Algumas pessoas discutem se a IA é ou não uma novidade, mas a velocidade com que a IA no jurídico está avançando é nova para todo mundo. A escala é nova e, quase todos os dias temos algo novo e diferente.
Essa trilha conversa com profissionais em diferentes momentos da carreira: de quem está entrando no mercado a quem já exerce funções de liderança. Se você está começando, ela é para você. Se você lidera quem está começando, também.
Episódio 1: IA no jurídico traz um risco para quem está começando na carreira — mas talvez não o que você pensa.
Você está em um onboarding no seu novo emprego ou em uma aula nova, já no finalzinho da faculdade. E aí, mais uma vez, você ouve alguém falar algo como: a IA vai mudar tudo ou alguma coisa do gênero. Na sua cabeça, passam mil questões: mudar tudo o quê? Como faço então? Por onde começo? A IA faz o que eu deveria fazer?
Só que você não pergunta nada disso em voz alta, até porque provavelmente acha que só você está pensando nisso naquela sala. A sensação é quase como se todos estivessem muito felizes porque a IA vai mudar tudo, enquanto você nem sabe o que ela pode mudar para você.
Este artigo é uma tentativa (espero que bem-sucedida) de responder algumas questões com honestidade, sem o otimismo de palestra, com dados e pesquisa, para que você tenha mais embasamento na sua carreira.
Você está certo em ter medo, mas errado sobre o porquê.
Você está certo em sentir desconforto, mas o principal erro é ter certeza que a IA vai te substituir. Até porque o risco real é outro e mais silencioso: chegar ao mercado de trabalho sem saber construir o que a IA não consegue construir por você.
E esse risco tem nome. Dario Amodei, CEO da Anthropic, disse em Davos, no início de 2026, que a IA não vai mudar um campo por vez; ela afetará simultaneamente todas as áreas, e os trabalhos de base serão os primeiros impactados.
Isso pode ser potencialmente perigoso para um jovem recém-formado, não porque as pessoas perderão o emprego do dia para a noite, mas porque o caminho para se tornar expert em algo começa exatamente nesses trabalhos. A verdade é que esse caminho está sendo encurtado antes mesmo de existir. O risco não é a IA te substituir, mas tirar sua oportunidade de construir uma base sólida, com visão, senso crítico, adaptabilidade e curiosidade.
A armadilha do atalho.
Existe um padrão que já começou a aparecer no mercado: o uso da IA como substituta do esforço cognitivo, e não como amplificadora dele. Começando com um exemplo pequeno: um profissional júnior recebe uma solicitação de pesquisa jurisprudencial. Naturalmente, joga a demanda no ChatGPT ou no Claude, recebe uma resposta razoável, formata e entrega. À primeira vista, ninguém vai perceber. A entrega está lá. Mas há uma diferença entre uma tarefa entregue e uma tarefa realmente feita. E isso tem um custo que demora a aparecer, mas aparece.
O júnior até sabe pesquisar, mas pesquisar e entender são coisas diferentes. Quando a resposta sai em segundos, ninguém aprende a questionar se ela está certa e todo trabalho parece bom, toda fundamentação parece suficiente. E é exatamente aí que se diferencia um advogado mediano de um bom advogado: a capacidade de ler uma decisão e perceber o que está errado antes que alguém aponte. São essas habilidades, o detalhismo e a desconfiança saudável em relação ao que está na tela, que não se aprendem em um curso. Elas só se formam quando você não tem outra saída a não ser ir a fundo.
Jonathan Haidt, psicólogo social e professor da NYU Business School, é uma das vozes mais citadas no mundo sobre atenção, desenvolvimento humano e os efeitos da tecnologia no modo como pensamos. A lógica que ele aplica ao desenvolvimento humano vale aqui: qualquer pessoa que terceiriza o pensamento para a IA antes de ter aprendido a pensar está perdendo algo que não se recupera de forma simples depois.
E esse atalho aparece de formas que nem sempre são óbvias. Tem o júnior que usa a IA para validar o próprio trabalho, não como revisão, mas como substituta do julgamento. Tem o estagiário que busca um sênior para perguntar algo que encontraria em segundos em uma busca simples, mas recorre à IA para tarefas para as quais ainda não tem base suficiente para avaliar o resultado. O padrão em comum? A falta de julgamento sobre quando e como usar cada ferramenta. E esse julgamento só se constrói com prática real.
A verdade é que usar IA antes de construir sua base não vai te acelerar. Quem faz isso pode até chegar mais longe na aparência, mas fica para trás em essência e fundamento. O tempo que você ganha hoje pode ser exatamente o que vai te fazer falta no futuro.
O que vai definir sua trajetória é o pensamento crítico que você desenvolve sobre como usá-la. E isso é exatamente o que chamamos de soft skills: a base que nenhum modelo constrói por você.
Soft skills: o que são, por que importam e por que você já deveria saber disso.
Você já está sendo avaliado por isso agora, provavelmente sem saber. Nenhuma faculdade de Direito tem uma disciplina que ensine diretamente o que são soft skills e por que elas importam.
Com bastante objetividade, comunicação clara, escuta ativa, adaptabilidade a ambientes complexos e capacidade de receber e incorporar feedback estão entre as competências mais valorizadas pelas grandes empresas. Segundo a Michael Page no Brasil. para 2026, essas são precisamente as competências mais difíceis de encontrar em um processo seletivo e as que mais faltam nos candidatos.
A Forbes foi mais direta: com a IA assumindo as tarefas técnicas, o colaborador que possui inteligência emocional, resiliência, criatividade e capacidade de influência se torna um diferencial que nenhum modelo de LLM conseguirá replicar.
E talvez você já tenha sentido isso: um feedback que pesou mais do que deveria, uma tarefa ambígua que travou ou a sensação de não saber por onde começar sem que alguém mostrasse o caminho. Tudo isso pode indicar falta de prática e de espaço para errar.
A boa notícia é que essas competências se desenvolvem no trabalho de verdade, no dia a dia, na rotina de erros e acertos. E você pode começar agora. Na próxima minuta que você receber para revisar, procure ler o documento até o final, e não apenas os pontos que a IA te apontou como errados. Ou, na próxima decisão que a IA gerar e você se perguntar se concorda com ela antes de entregar a tarefa. Ou, em uma próxima reunião, que ao invés de perguntar, você anota as perguntas que surgem na sua cabeça e tenta resolvê-las entendendo o contexto.
A ambiguidade de ser a geração com mais acesso (e a mais prejudicada por isso).
Essa é a ironia central do momento.
Na era da IA no jurídico, você tem acesso a ferramentas que nenhuma geração anterior teve. Em 2018, fazer uma pesquisa de jurisprudência significava passar horas lendo casos similares, entendendo diferentes julgamentos e chegando a uma posição própria sobre o tema. Hoje, o mesmo resultado sai em segundos. É mais rápido, mas onde ficou o processo de entender como uma decisão é construída? A lógica de cada argumento? O que separa um fundamento fraco de um sólido? Isso não se aprende lendo o resultado, se aprende no caminho.
Quando a produção aumenta sem que o raciocínio que sustenta essa produção também se desenvolva, o que se cria é uma ilusão de competência. Você entrega mais, mas aprende menos. E essa diferença aparece mais cedo do que parece: no momento em que o júnior precisa crescer e mudar de etapa em sua carreira. Porque o próximo passo não é só entregar mais, mas dominar a técnica e começar a entender os problemas por trás dela. Como fazer isso sem uma base construída?
Os números globais ainda são otimistas. O Fórum Econômico Mundial projeta impacto líquido positivo da IA no mercado de trabalho até 2030. Mas essa média esconde uma distribuição muito assimétrica: os profissionais que colaboram com a IA crescem; os que são substituídos por ela diminuem. O critério que separa esses dois grupos não é se você usa IA, mas se você usa IA para pensar melhor ou para não precisar pensar.
Haidt foi pontual sobre isso: na era da IA, nossas máquinas estão ficando mais inteligentes do que nós em velocidade acelerada, e nós estamos ajudando esse processo ao nos tornarmos cada vez mais superficiais.
O júnior que usa IA para não pensar está, sem perceber, treinando para se tornar substituível. O júnior que usa IA para ampliar o próprio raciocínio ou aprender mais está construindo algo que nenhum modelo vai tomar dele.
| Para o líder do outro lado. Liderar esse perfil hoje, na era da IA no jurídico, é navegar uma contradição real: você quer desenvolver, mas o contexto não dá margem. Time enxuto, entregas constantes, pressão e um júnior que não tem paciência para construir base porque, honestamente, nunca precisou. A verdade é que temos uma nova geração de profissionais, que chegou ao mercado num momento em que a resposta sempre esteve disponível antes mesmo da pergunta terminar. Eles não sabem que estão perdendo algo porque o que se perde é justamente a capacidade de perceber o que falta. E é aí que o desafio fica mais difícil. Você não pode parar a operação para fazer mentoria. Mas pode, e deve, mudar o que pede. Não o resultado, mas o raciocínio que acompanha. Peça para explicar, não só para entregar. E, se ele não conseguir, você saberá onde está a lacuna. Se conseguir, você saberá que algo está sendo, de fato, construído. Dentro de um time enxuto, o desenvolvimento não acontece em reuniões de feedback estruturadas. Acontece nas tarefas do dia a dia. A diferença está em quais tarefas você atribui e no que você cobra além da entrega: a explicação do que foi feito, o questionamento do que a IA retornou e a capacidade de defender uma posição. São pequenas cobranças, mas são elas que formam a base. |
O risco real que a IA pode trazer.
O problema não será utilizar Inteligência Artificial, nem o fato de as IAs estarem evoluindo para executar trabalhos técnicos antes mesmo de muitos desses profissionais consolidarem sua experiência. O problema está no que vem depois e sobre o que essa geração de profissionais ainda não precisou pensar.
O risco real está em usar a IA para não precisar pensar, em um momento em que o pensar é exatamente o que precisava ser exercitado. E, para quem lidera, o risco está em deixar que a pressão por produtividade substitua o investimento na construção de base, porque um time sem base é um time que entrega hoje, mas trava amanhã.
O júnior que constrói base com IA vai crescer mais rápido do que qualquer geração anterior. Mas o que não construir vai ficar para trás mais rápido também. No final, a diferença está no que você decide fazer com o tempo que a IA te devolve.
Do hype ao método: o que você pode fazer agora
Para começar ainda esta semana:
| 1. Inverta a lógica: faça antes de delegar Nas primeiras vezes que você executar uma tarefa, tente resolvê-la antes de abrir qualquer ferramenta de IA. Depois, use a tecnologia para comparar, refinar ou questionar o que você produziu. A IA potencializa quem já pensou; não substitui quem ainda não aprendeu a pensar sobre determinado tema. |
| 2. Use a IA para aprender, não só para entregar Depois de receber qualquer retorno de uma IA, experimente este prompt: “Não quero apenas a resposta. Me explique o passo a passo do raciocínio que levou a essa conclusão e o que eu precisaria entender para chegar nela sozinho.” A resposta vai mostrar o que você ainda não sabia perguntar. |
Para os próximos meses:
| 3. Peça feedback da sua própria evolução Experimente este prompt com a IA que você mais usa: “Com base nas nossas trocas e nas tarefas que trabalhamos juntos, qual skill técnica ou comportamental eu poderia desenvolver para operar um nível acima do que opero hoje? Me avise se não tiver contexto suficiente. Não quero respostas sem embasamento.” Se a IA não tiver contexto, ela vai te dizer. Se tiver, o retorno costuma surpreender. |
Para desenvolver ao longo da carreira:
| 4. Use a IA para se preparar antes, não só para produzir depois Antes de uma reunião importante, de uma entrega que você nunca fez antes ou de uma conversa difícil com um líder, experimente este prompt: “Vou participar de [contexto]. Quais são as perguntas que provavelmente vão surgir e que eu deveria saber responder? O que eu deveria estudar antes para chegar preparado?” Chegar preparado quando ninguém esperava que você estivesse é uma das formas mais rápidas de mudar a percepção que as pessoas têm sobre o seu trabalho. |
Artigo assinado por Manuella Gelli, Legal Operations & IA


