Existe uma frase que escuto quase toda semana, dita em voz mais baixa, no tom de quem confessa: ainda não fizemos nada com inteligência artificial. Vem com um constrangimento que não deveria existir, como se o assunto já estivesse resolvido em todo lugar e só ali tivessem perdido a data.
Costumo responder que isso não é um problema, e talvez seja até uma vantagem. A pressa me preocupa bem mais do que a demora: quem ainda não fez nada pode fazer na ordem certa, enquanto quem comprou licença no ano passado, distribuiu para a equipe e não combinou nada vai precisar desfazer antes de recomeçar. É o ponto de partida mais comum que encontro.
Mapear antes de automatizar
E a ordem certa, no começo, não tem nada de tecnológico. Começa no processo, palavra grande para algo simples: o que a equipe faz todo dia, na sequência em que faz. Antes de olhar ferramenta, escolha um assunto e descreva o caminho dele do começo ao fim. Como a demanda entra, quem recebe, o que faz, para quem passa, quanto tempo leva e onde costuma travar. Um assunto apenas, mesmo que pareça pouco ambicioso, porque querer mapear departamentos jurídicos ou escritórios de advocacia inteiros de uma vez é a forma mais garantida de não mapear nada.
Nesse desenho, o que mais interessa são as exceções. O fluxo oficial funciona bem no papel, mas quem já trabalhou em operação sabe que o conhecimento de verdade está nos casos que fogem do padrão, e esses raramente estão escritos. Se a exceção não entra no mapa, a tecnologia organiza uma versão idealizada da rotina, enquanto a equipe continua resolvendo o resto por fora, no grupo de mensagens.
Depois do processo vêm os dados, e aqui a palavra assusta mais do que deveria. Não é ciência de dados nem painel bonito. É combinar que todo mundo classifique o mesmo assunto do mesmo jeito, que a informação entre no campo próprio do sistema em vez de ficar escondida no meio de um texto, e que os modelos e as teses da casa fiquem onde a equipe consiga achar.
Parece burocracia, e é o contrário disso: sem esse acordo básico nenhum relatório fecha e nenhuma ferramenta tem com que trabalhar, porque a máquina só alcança o que alguém registrou. O que está na cabeça de duas ou três pessoas experientes continua fora do alcance, por melhor que seja o software.
Automação x IA no jurídico: diferenças e custos reais
Há ainda uma distinção que evita gastar dinheiro à toa. Automação é regra fixa, como protocolar, avisar um prazo ou gerar o mesmo relatório toda segunda. Quando ela falha, a falha aparece, porque o fluxo simplesmente para. Inteligência artificial é outra coisa: é interpretação. Ler uma inicial, resumir um caso, comparar contratos, escrever a primeira versão de uma minuta.
O resultado é provável, nunca garantido, e o incômodo está aí, porque quando erra o texto continua com cara de certo. Boa parte do que hoje se vende como inteligência artificial é automação bem feita, o que até é boa notícia, já que automação sai mais barata e é mais fácil de conferir. Antes de contratar, pergunte se a tarefa tem regra escrita ou se depende de interpretação.
As contas também são diferentes, e essa parte costuma surpreender. Na automação o gasto se concentra na construção, e o que volta todo ano é a manutenção, porque quando o sistema do tribunal muda o fluxo quebra. Na inteligência artificial paga-se pelo uso, que cresce com o volume de texto, mais a licença por usuário, cobrada inclusive de quem nunca abre a ferramenta.
E há um custo que quase nunca entra na planilha, o tempo de revisão, caro porque é tempo de gente experiente. Se o desenho obriga a revisar linha por linha tudo o que a máquina produz, o ganho encolhe bastante diante do que a demonstração prometia.
| Acesse também: • Seu departamento jurídico está seguro no uso de Inteligência Artificial? Faça o diagnóstico. |
Ler, organizar, propor: o papel da IA no jurídico
Com o básico arrumado, os bons usos aparecem quase sozinhos e cabem em departamentos jurídicos ou escritórios de advocacia de qualquer tamanho. Leitura da inicial com os pedidos já classificados, resumo do processo em ordem cronológica, relatórios por cliente ou por tese montados das próprias peças, primeira minuta sobre os fatos e o modelo da casa, revisão de contrato por roteiro de cláusulas, comparação entre versões. Em todos, a ferramenta lê, organiza e propõe. Quem decide e quem assina continua sendo o advogado.
Falando em assinar, há um cuidado novo que vale conhecer desde o primeiro dia. A máquina não distingue conteúdo de ordem, porque tudo chega pelo mesmo campo de leitura. Um documento pode carregar instrução escondida, em letra branca sobre fundo branco ou em corpo minúsculo, e ela será lida como comando. Deixou de ser conversa de laboratório.
Em setembro deste ano, ao julgar recurso especial que trazia comando oculto pedindo à inteligência artificial que considerasse a tese vencedora, a Segunda Turma do Superior Tribunal de Justiça tratou a conduta como de extrema gravidade e aplicou multa por litigância de má-fé. Outros tribunais já haviam punido peças com precedentes inventados, e a lição é a mesma: quem responde é quem assina.
Nenhuma revisão é dispensável
A precaução é simples. Confira o que entra, principalmente a peça da outra parte e o documento que o cliente mandou, e confira o que sai, sobretudo as citações, abrindo a fonte em vez de confiar no que veio pronto. Vale deixar por escrito quem revisa antes do protocolo, já que combinado verbal não resiste a prazo apertado.
Termino no ponto que considero mais importante. A tecnologia não substitui conhecimento técnico; encarece a falta dele. Quem não domina a matéria não consegue explicar o que quer, e pedido vago devolve resposta vaga. Só percebe o precedente alterado quem conhece o precedente. E o advogado em início de carreira que apenas aprova o que a máquina escreveu não constrói o repertório que um dia sustentaria essa revisão.
Se você ainda não começou, comece pequeno. Escolha um processo que incomoda, descreva como ele funciona hoje, meça o tempo que consome e só então pergunte o que a tecnologia pode fazer ali. O diferencial não será saber usar inteligência artificial. Será usá-la sem deixar de pensar.
Artigo assinado por Ana Cristina Robortella, Legal Operations e Controladoria Jurídica e fundadora da Lexon