Se a forma de atuar do Jurídico mudou tão pouco nas últimas décadas, por que hoje se fala tanto em Legal Ops?
O volume de contratos aumentou, a complexidade regulatória cresceu, as demandas por compliance e os litígios se multiplicaram e a velocidade dos negócios acelerou. Ainda assim, na maioria das organizações, o Jurídico continuou sendo gerido praticamente da mesma forma: processos pouco padronizados, baixa utilização de dados, dependência excessiva de pessoas e pouca visibilidade sobre custos, produtividade e resultados.
Em algum momento, ficou evidente que contratar mais advogados e aumentar a estrutura dos escritórios e departamentos já não resolvia o problema. Foi justamente nesse contexto que surgiu Legal Ops.
Neste artigo, proponho uma abordagem à la “Globo Repórter”, dos velhos tempos: “Onde vivem? O que fazem? Como surgiram?” em uma versão dedicada ao Legal Ops. Vamos?
O problema veio antes da solução
Durante muito tempo, o Jurídico foi estruturado para atender a uma realidade bastante diferente da que vivemos hoje. O volume de demandas era menor, as estruturas organizacionais eram menos complexas e a pressão por indicadores de desempenho praticamente inexistia. As organizações mediam o sucesso da área principalmente pela qualidade técnica das análises e pela capacidade de solucionar questões legais à medida que surgiam.
Esse modelo funcionou por muitos anos. Porém, conforme as empresas e escritórios cresceram, expandiram suas operações e passaram a atuar em ambientes regulatórios cada vez mais complexos, o Jurídico também precisou assumir novas responsabilidades.
Além do aumento expressivo no número de contratos, litígios, demandas regulatórias e obrigações de compliance, surgiram novas expectativas para o Jurídico. A área passou a controlar custos, justificar orçamentos, acompanhar indicadores, demonstrar produtividade, reduzir riscos e responder com mais rapidez.
Muitas organizações tentaram responder a esse cenário ampliando suas equipes ou contratando mais escritórios de advocacia. Embora essa estratégia pudesse absorver o crescimento do volume de trabalho, ela não atacava a causa do problema: a operação jurídica continuava sendo gerida praticamente da mesma forma.
Os limites do modelo tradicional de gestão jurídica
A falta de padronização dos processos começou a limitar o crescimento da área. As informações estavam distribuídas em diferentes sistemas, havia poucos indicadores confiáveis, baixa integração entre equipes e forte dependência do conhecimento individual.
Foi nesse momento que ficou evidente que o desafio não era apenas jurídico. Era um desafio de gestão. As empresas e os escritórios não precisavam apenas de mais advogados. Precisavam de uma estrutura capaz de organizar a operação jurídica, padronizar processos, produzir dados confiáveis e permitir que o Jurídico acompanhasse a velocidade e a complexidade do negócio.
Assim, surgiu o Legal Ops: não como uma substituição da atividade jurídica, mas como uma disciplina voltada a criar as condições para que ela seja exercida de forma mais eficiente, estratégica e alinhada aos objetivos da organização.
Se perguntarmos a um diretor financeiro como ele acompanha o desempenho da sua área, provavelmente veremos indicadores claros, processos estruturados e métricas consolidadas. O mesmo acontece em Operações, Recursos Humanos e Tecnologia.
Durante muito tempo, porém, o Jurídico foi uma das poucas áreas cuja gestão se apoiava predominantemente na experiência técnica de seus profissionais. O surgimento do Legal Ops representa justamente a mudança desse paradigma: sem abrir mão da excelência jurídica, a área passa a incorporar princípios de gestão, dados e governança que já fazem parte da rotina das demais áreas estratégicas da organização.
Como surgiu esse movimento
Considerando esse contexto, torna-se natural compreender por que o Legal Ops surgiu.
Grandes empresas, especialmente nos Estados Unidos, passaram a criar profissionais dedicados exclusivamente à gestão da operação jurídica, atuando em temas como tecnologia, gestão financeira, relacionamento com escritórios externos, indicadores, governança e melhoria contínua de processos.
Em 2015, esse movimento ganhou escala com a criação do Corporate Legal Operations Consortium (CLOC), organização internacional que se tornou a principal referência mundial em Legal Ops. Além de reunir líderes da área, o CLOC consolidou boas práticas e desenvolveu um framework que orienta o Jurídico na construção de operações mais eficientes, estratégicas e orientadas por dados.
A consolidação do Legal Ops no Brasil
Na prática, o mercado brasileiro também demonstra esse amadurecimento.
Como Regional Leader do CLOC Brasil, tenho acompanhado de perto essa evolução e é possível perceber uma mudança significativa no mercado. Temas que, há poucos anos, eram discutidos quase exclusivamente em multinacionais hoje fazem parte da agenda de empresas e escritórios de diferentes portes.
Esse avanço demonstra que Legal Ops deixou de ser uma discussão sobre eficiência operacional para se consolidar como um modelo de gestão capaz de ampliar a contribuição estratégica do Jurídico.
Afinal, o que é Legal Ops?
Quando se fala em Legal Ops, é comum associar a área à implementação de tecnologia, automação ou inteligência artificial. Embora essas iniciativas façam parte da atuação de Legal Ops, elas representam apenas uma parcela do que a disciplina realmente é.
Legal Ops não é um software, uma ferramenta ou um projeto de inovação. É uma disciplina de gestão voltada a estruturar a operação jurídica para que ela seja mais eficiente, previsível e alinhada aos objetivos do negócio.
Na prática, isso significa organizar processos. Além disso, envolve estabelecer indicadores de desempenho, fortalecer a governança de dados, aprimorar a gestão financeira, estruturar o relacionamento com escritórios externos, implementar tecnologia de forma estratégica e apoiar o planejamento da área jurídica.
O objetivo não é substituir o trabalho do advogado, mas criar um ambiente em que ele possa dedicar mais tempo às atividades que exigem conhecimento jurídico e pensamento estratégico.
Essa visão fica ainda mais clara quando observamos que as principais responsabilidades de Legal Ops não dizem respeito ao Direito em si, mas à forma como a operação jurídica é administrada.
Mais do que buscar eficiência operacional, Legal Ops tem como propósito aumentar a capacidade do Jurídico de gerar valor para a organização. Afinal, um Jurídico estratégico não é aquele que apenas resolve problemas legais, mas aquele que consegue fazê-lo com previsibilidade, governança, inteligência e foco no negócio.
Para orientar essa transformação, o CLOC desenvolveu um framework que reúne as principais competências necessárias para uma operação jurídica madura. Conhecido como Core 12, ou, carinhosamente, “Mandala do CLOC”, como ficou conhecido no Brasil, esse modelo passou a ser uma das principais referências para quem busca estruturar ou evoluir sua área de Legal Ops.
A Mandala do CLOC: um framework para transformar departamentos jurídicos
A Mandala do CLOC não define Legal Ops como um cargo ou um conjunto de ferramentas. Ela organiza a disciplina em doze competências que representam os pilares de uma operação jurídica madura.
O modelo demonstra que uma gestão eficiente depende da integração de diferentes disciplinas, como planejamento estratégico, gestão financeira, tecnologia, governança da informação, gestão de fornecedores, business intelligence, gestão de projetos, otimização organizacional e desenvolvimento de pessoas.

A figura acima ilustra como essas competências se complementam para formar uma operação jurídica integrada e orientada por valor.
Tecnologia é apenas um dos pilares do Legal Ops
O aspecto mais interessante desse framework é demonstrar que Legal Ops vai muito além da tecnologia. Embora soluções tecnológicas sejam fundamentais para aumentar produtividade e escala, elas representam apenas uma das competências necessárias para uma operação jurídica eficiente. Sem processos estruturados, dados confiáveis, indicadores consistentes e governança, a tecnologia tende apenas a acelerar problemas que já existiam.
Outro ponto relevante é que as competências da Mandala não devem ser encaradas como áreas isoladas. Elas são interdependentes e evoluem em conjunto.
Uma organização dificilmente desenvolverá uma boa estratégia de dados sem investir em governança. Da mesma forma, será difícil extrair valor da inteligência artificial sem processos bem definidos e indicadores confiáveis.
Mais do que um modelo teórico, a Mandala funciona como um guia para identificação do estágio de maturidade do Jurídico e posterior definição das prioridades para evolução. Cada organização ou escritório percorrerá essa jornada de forma diferente, mas todas compartilham o mesmo objetivo: construir uma operação jurídica mais eficiente, previsível e alinhada à estratégia do negócio.
Ao longo dos próximos artigos desta série, que vou carinhosamente chamar de “Jornada de Legal Ops”, exploraremos algumas dessas competências de forma prática, demonstrando como elas podem ser aplicadas para transformar a gestão jurídica e aumentar o valor estratégico do Jurídico. Vamos juntos?
Artigo assinado por Flávia Furlan, Legal Ops na Uber e Regional Leader do CLOC Brasil.


