A maturidade do Jurídico não depende apenas da quantidade de dados, indicadores ou tecnologias disponíveis, mas da capacidade de transformar informações em inteligência para a tomada de decisão. Com uma gestão orientada por dados, é possível compreender causas, antecipar riscos, direcionar recursos e fortalecer a atuação estratégica do Jurídico para gerar mais valor ao negócio.
Imagine dois departamentos jurídicos com cinco mil processos ativos.
Quando perguntado ao primeiro como está o contencioso, recebemos a seguinte resposta: temos cinco mil processos, seiscentos novos casos por trimestre, duzentos encerrados e determinado valor provisionado.
Fazemos a mesma pergunta ao segundo, e a resposta é diferente: nosso volume aumentou 8%, mas a exposição financeira está concentrada em três teses. Uma delas representa 40% do risco e apresentou crescimento nos últimos seis meses. Já identificamos as principais causas e estamos atuando com a área de operações para reduzir a entrada de novos casos.
Esses dois Jurídicos possuem dados, mas apenas um conseguiu transformar informação jurídica em inteligência para a tomada de decisão. É justamente nessa diferença que começa nossa conversa sobre maturidade na gestão jurídica.
Ter dados não significa necessariamente ser data-driven
No primeiro artigo da nossa Jornada de Legal Ops, falamos sobre a Mandala do CLOC e sobre como suas competências se complementam para formar uma operação jurídica mais madura.
Agora, quero aprofundar especialmente duas delas: Business Intelligence e planejamento estratégico.
Existe uma tendência de associar maturidade à quantidade de tecnologia disponível. Um Jurídico com sistemas, dashboards, automações e inteligência artificial pode parecer, num primeiro momento, uma operação extremamente avançada, mas não necessariamente é.
Uma área pode acompanhar dezenas de KPIs sem utilizar nenhum deles efetivamente para tomar decisões.
Além disso, dashboard não é inteligência, mas apenas uma forma de visualizar dados.
Inteligência começa quando aquela informação muda uma decisão.
Por isso, talvez seja mais útil avaliar a maturidade do Jurídico pela forma como ele utiliza a informação do que pelas ferramentas que possui.
Do operacional ao estratégico
Não existe uma única jornada de maturidade aplicável a todas as organizações, mas podemos observar alguns padrões de evolução.
Em um primeiro estágio, operacional, o foco está na execução. Os dados estão dispersos, há forte dependência do conhecimento individual e os indicadores concentram-se principalmente em volume e produtividade.
A pergunta que costuma predominar é: quantos casos ou contratos nós temos?
No estágio controlado, os dados passam a ser consolidados, os processos são padronizados, as rotinas são estabelecidas e surgem indicadores mais consistentes. A organização começa a enxergar melhor sua própria operação.
A pergunta passa a ser: o que está acontecendo?
No estágio governado, o Jurídico trabalha com responsabilidades definidas, qualidade da informação, indicadores confiáveis e acompanhamento de tendências. Os dados deixam de servir apenas para reportar resultados e passam a ajudar na compreensão das causas.
A pergunta evolui para: por que isso está acontecendo?
Por fim, em uma operação mais estratégica, a informação é utilizada para antecipar movimentos, construir cenários, prevenir riscos e influenciar decisões.
A pergunta passa a ser: o que devemos fazer a respeito?
Essa evolução das perguntas talvez seja uma das formas mais simples de identificar a maturidade de uma operação jurídica.
O salto mais difícil: de indicadores para inteligência
Muitas organizações conseguem avançar do operacional para o controlado. Implementam sistemas, organizam bases de dados e começam a acompanhar indicadores.
O salto mais difícil acontece depois, porque uma coisa é medir atividade, e outra, bem diferente, é medir resultado.
Saber quantos processos existem é importante, mas uma operação mais madura procura entender quais são suas principais causas e quais delas podem ser eliminadas.
Saber quantos contratos foram revisados ajuda a dimensionar o volume de trabalho. Porém, identificar quais cláusulas concentram negociações e quais etapas aumentam o ciclo contratual gera informação para melhorar o processo.
Da mesma forma, acompanhar o tempo médio de atendimento é relevante, mas compreender onde o Jurídico efetivamente impacta a velocidade do negócio permite decisões mais estratégicas.
A evolução acontece quando deixamos de perguntar apenas “quanto fizemos?” e começamos a perguntar “o que essa informação nos permite fazer diferente?”.
Business Intelligence não é sinônimo de dashboard
É justamente aqui que a competência de Business Intelligence, prevista na Mandala do CLOC, ganha relevância.
Existe uma tentação de começar um projeto de dados pela ferramenta: qual dashboard vamos criar? Quais indicadores devemos acompanhar?
Legal Ops nos convida a inverter essa lógica.
Primeiro: que decisão precisamos tomar?
Depois: que informação precisamos para tomar essa decisão?
E, somente então: quais dados precisamos capturar?
Essa mudança evita um problema comum em projetos jurídicos, que é produzir uma grande quantidade de informação que ninguém efetivamente utiliza.
É também aqui que Business Intelligence se conecta ao planejamento estratégico, mais uma competência da mandala do CLOC. Dados ganham valor estratégico quando ajudam o Jurídico a priorizar recursos, antecipar riscos, definir objetivos e escolher onde concentrar seus esforços.
Em qual estágio está o seu Jurídico?
Uma autoavaliação não precisa começar com um diagnóstico complexo. Algumas perguntas já ajudam a entender a maturidade da operação:
- Nossos indicadores mostram apenas volume ou também resultados?
- Conseguimos explicar as principais causas das nossas demandas e riscos?
- Os dados produzidos pelo Jurídico influenciam decisões de outras áreas?
- Podemos identificar tendências antes que elas se transformem em problemas?
- Nossas reuniões executivas discutem números ou utilizam esses números para discutir decisões?
Se a maior parte das conversas ainda estiver concentrada na quantidade de processos, contratos, pareceres, chamados ou horas trabalhadas, provavelmente a operação está mais próxima da gestão de atividade do que da gestão estratégica.
E não há necessariamente um problema nisso.
Maturidade é uma jornada, e não uma competição. O importante é compreender onde estamos e qual deve ser o próximo passo.
Por onde começar, então?
Três movimentos podem gerar impacto significativo.
O primeiro é escolher uma decisão relevante, e não um indicador. Pode ser reduzir determinada causa de contencioso, melhorar o ciclo de contratos ou otimizar gastos com fornecedores externos.
O segundo é identificar quais informações realmente ajudam a compreender aquele problema. Muitas vezes, os dados necessários já existem, mas estão dispersos ou não são analisados de forma integrada.
O terceiro é criar indicadores que levem à ação. Todo KPI deveria ser acompanhado de uma pergunta simples: se esse número mudar, o que faremos diferente?
Se não existe uma resposta, talvez aquele indicador não seja tão estratégico quanto imaginamos.
Da informação à decisão
Voltando aos dois Jurídicos que falamos no início: a principal diferença entre eles não estava no número de processos, no tamanho das equipes ou, necessariamente, na tecnologia disponível. Estava na forma como utilizavam a informação. Enquanto um registrava o que havia acontecido, o outro utilizava os dados para compreender causas, antecipar riscos e influenciar decisões.
É essa transição que caracteriza uma operação jurídica mais madura. Legal Ops não transforma o Jurídico em estratégico simplesmente pela adoção de ferramentas ou pela criação de novos indicadores. A transformação acontece quando processos, dados e inteligência passam a orientar decisões e quando o conhecimento produzido pelo Jurídico começa a influenciar o negócio.
Talvez, portanto, a melhor medida de maturidade não seja perguntar quais e quantos dados o Jurídico possui, mas quantas decisões melhores ele consegue tomar e ajudar a organização a tomar a partir deles.
No próximo artigo da nossa Jornada de Legal Ops, vamos aprofundar justamente o ativo que sustenta essa evolução: os dados jurídicos e por que qualidade e governança precisam vir antes de dashboards e inteligência artificial.
Até breve!
Artigo assinado por Flávia Furlan, Legal Ops na Uber e Regional Leader do CLOC Brasil.