Gestão Jurídica

Controladoria jurídica e Legal Ops: entenda a diferença

Sumário

A diferença entre controladoria jurídica e Legal Ops não está apenas no nome, mas no nível de maturidade da estrutura por trás de cada função. Enquanto a controladoria sustenta a operação interna, com foco em prazos, orçamento e padronização, o Legal Ops amplia essa atuação ao conectar o jurídico às metas do negócio, à tecnologia e à gestão de fornecedores. Definir corretamente cada função ajuda a contratar os profissionais certos, estruturar carreiras e medir resultados com mais precisão.

Sua controladoria jurídica não virou Legal Ops. E isso não é um atraso.

Há um fenômeno acontecendo no mercado jurídico quando falamos sobre gestão. Um profissional trabalha como controller jurídico em um escritório de advocacia. Controla prazos, acompanha orçamento, mede desempenho, organiza a rotina, padroniza fluxos e entrega relatórios para a gestão.

Um dia, ele muda de cadeira e vai para dentro de um departamento jurídico. As tarefas são as mesmas. As entregas são as mesmas. O escopo é o mesmo. Mas o nome muda. Agora, ele é Legal Ops.

Ninguém explica direito por que a mudança de cadeira reclassifica a profissão. Ela simplesmente acontece, como se houvesse uma regra silenciosa de que controladoria jurídica é coisa de escritório e Legal Ops é coisa de in-house.

O que me intriga é que são duas áreas com focos diferentes, que respondem a perguntas diferentes e que deveriam ser medidas por réguas diferentes. A comparação nunca teve a mesma medida e, mesmo assim, ela insiste em aparecer.

Falar de conceito de novo não é retrocesso

O assunto pode até parecer batido. Dentro da bolha de gestão jurídica, discutir o que é controladoria jurídica e o que é Legal Ops soa como conversa de 2019, e todo mundo diz estar cansado do tema. Mas será que isso não é a sensação de quem vê o tema de dentro?

Parto de uma premissa simples: enquanto a dúvida existir, a pergunta não é ultrapassada. E a dúvida existe. Ela aparece nas conversas com recrutadores, nas descrições de vaga, nas perguntas que recebo de quem está conhecendo melhor a área e, principalmente, nos escritórios e departamentos que sequer sabem que existe uma área capaz de assumir aquelas demandas que hoje ficam espalhadas entre várias pessoas diferentes.

O que me preocupa não é a confusão em si, porque confusão conceitual se resolve explicando. E, de fato, ela não impede que o exercício de ambas as áreas aconteça. O problema é o tamanho do espaço vazio que vemos dentro de operações jurídicas que poderiam estar muito mais bem organizadas e que não estão porque ninguém nomeou o problema.

O problema não é o conceito. É a conclusão que tiram dele.

Minha crítica não é a quem troca os termos, mas a uma leitura específica que virou quase senso comum: a de que a controladoria jurídica virou Legal Ops. De que ela foi substituída. De que quem hoje tem uma controladoria jurídica estruturada está rodando um modelo vencido, esperando o momento do upgrade. Não é isso. Legal Ops é um além. Não é um substituto.

E a inversão que eu proponho é esta: quem tem controladoria jurídica e não tem Legal Ops não está ultrapassado. Está no meio de uma construção, pois ainda não implementou o que a outra área exige em maturidade de dados, em orçamento, em tecnologia, em desenho de processos, em patrocínio da liderança.

Alterar o ponto de vista muda muito, porque paramos de comparar áreas e de criar conceitos como “você está ultrapassado” e passamos a abrir uma conversa sobre “níveis de maturidade de área”.

O que cada uma faz, de fato

Quando falamos de controle de prazos, análise orçamentária, gestão operacional da rotina, padronização, conferência e consistência da base de dados, estamos falando de controladoria jurídica. Quando falamos de medir desempenho e de sustentar a operação para que ela não quebre no dia a dia, também estamos falando de controladoria jurídica.

A pesquisa Legal Operations: perspectivas de inovação e gestão jurídica, do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) da FGV Direito SP, é explícita ao afirmar que Legal Ops e controladoria jurídica não são sinônimos: a controladoria jurídica tem uma atuação mais financeira e de controle, com foco em despesas e prazos, e o Legal Ops vai além disso, trabalhando no desenho de processos, na gestão de fornecedores, em tecnologia, em inteligência de dados, na conexão com as metas do negócio e na decisão sobre onde investir e onde cortar.

É uma camada que olha para fora do jurídico e, a meu ver, essa é a principal diferença entre as áreas. Legal Ops vai “além” porque cria pontes com outras áreas do negócio. E isso não seria possível se o próprio jurídico não estivesse bem estruturado.

O objetivo das áreas também é diferente. A controladoria jurídica foca em manter a engrenagem do jurídico operando de forma padronizada, sem falhas ou surpresas, permitindo que o time seja mais estratégico e funcional, na medida em que as áreas estão concentradas em entregar o que está em seu escopo: advogados entregam técnica jurídica, e a controladoria jurídica entrega gestão.

Legal Ops também é sobre gestão, mas pensa em um jurídico que é eficiente e eficaz para fora da sua redoma, que vincula seus resultados e suas metas às metas da empresa. Ambas, porém, são estratégicas na medida dos seus objetivos.

A pesquisa também registra que a conexão entre as duas varia conforme a organização: em algumas, o Legal Ops abarca a controladoria jurídica; em outras, as duas funcionam como instâncias paralelas e independentes.

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A área é nova. Nova de verdade.

Vale lembrar de um dado que ajuda a colocar essa discussão em perspectiva. Segundo o survey do CEPI, a criação de áreas de Legal Ops nas organizações participantes ocorreu especialmente a partir de 2016, mas com incidência muito maior entre 2020 e 2024.

E há um detalhe interessante: entre 2016 e 2019, o destaque foi a expansão dentro dos departamentos jurídicos, enquanto, nos escritórios de advocacia, o movimento veio depois, sobretudo entre 2020 e 2024.

Estamos falando de uma área que, na maior parte do mercado brasileiro, tem menos de cinco anos de estrutura formal. É pouquíssimo tempo. Não é razoável esperar que o vocabulário já esteja estabilizado, nem que recrutadores, sócios de escritório e profissionais em transição já tenham consenso sobre o que cada nome significa.

Por que a confusão acontece com tanta facilidade

O CEPI aponta que Legal Ops pode ser compreendido de três maneiras diferentes: como uma área formal dentro da organização, como um conjunto de atividades e funções ou como uma forma de agir, uma cultura organizacional.

Quando alguém diz “controladoria jurídica é Legal Ops”, muitas vezes está usando a terceira acepção, a de mentalidade. E aí, sim, faz algum sentido: a controladoria jurídica pode e deve operar com mentalidade de Legal Ops, orientada a dados, a processos e a resultados. Mas mentalidade não é estrutura. Ter uma forma de pensar não é a mesma coisa que ter um time, um escopo definido, um orçamento e indicadores próprios.

Acredito que a mistura dos três conceitos produz muito da confusão que estamos abordando neste artigo. E, pensando sobre o mercado de gestão jurídica no Brasil, penso que a discussão se torna ainda mais relevante quando analisamos as publicações de vagas e o que os recrutadores procuram.

Quando o nome não corresponde à estrutura

Algo semelhante acontece com o uso de termos relacionados à inteligência artificial. O AI washing é a prática de exagerar, distorcer ou até mesmo atribuir o uso de inteligência artificial a produtos, serviços ou discursos corporativos para transmitir uma imagem de inovação que nem sempre corresponde à realidade.

Alguma semelhança com o que temos visto no mercado de gestão jurídica?

O recrutador publica uma vaga de Legal Ops descrevendo, na prática, as atribuições de um controller. Ou o contrário. Como resultado, os candidatos não correspondem ao esperado, porque o desalinhamento começou no próprio anúncio.

O resultado pode ser uma falsa percepção de maturidade. A organização passa a impressão de ter uma área de inovação e tecnologia bem estruturada quando, em muitos casos, nem mesmo a gestão operacional está consolidada.

O profissional de gestão jurídica se vê perdido e, algumas vezes, desvalorizado. E a empresa, seja escritório de advocacia, seja departamento jurídico, que talvez precisasse justamente de uma controladoria jurídica bem-feita, porque não possui o mínimo de gestão, não estrutura nenhuma das duas áreas. Ouve falar de Legal Ops, acha caro, distante, coisa de grande corporação, e segue com uma gestão jurídica descentralizada e sem propósito.

Em algumas situações, nomear bem algo pode parecer preciosismo. Mas, quando falamos sobre profissões e oportunidades de mercado, penso que esse é um cuidado importante a ser tomado. Isso permite contratar certo, dimensionar o time, desenhar carreiras, definir salários e medir os resultados das pessoas e das empresas.

Artigo assinado por Ana Guimarães, Legal Operations na Afya

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