A IA no jurídico está redefinindo o papel dos profissionais mais experientes. Se antes a senioridade era reconhecida principalmente pelo conhecimento técnico, hoje ela passa a ser medida pela capacidade de construir soluções seguras, escaláveis e orientadas por governança. Nesse contexto, maturidade estratégica e fluência em IA se tornam competências indispensáveis. Para líderes, o desafio é desenvolver profissionais capazes de transformar tecnologia em valor para a operação e para o negócio.
Nos dois primeiros episódios da Trilha IA no jurídico: do hype ao método, a fala foi direcionada aos profissionais que estão no momento de construção de carreira e de maturidade profissional.
Daqui para frente, a conversa muda um pouco. A intenção é tratar com quem já deu passos significativos na carreira, possui anos de formação e apresenta uma maturidade diferente no cotidiano.
Quando penso no profissional sênior no jurídico hoje, enxergo dois possíveis caminhos:
(I) O sênior que já entendeu que usar IA virou skill básica, tão básica quanto saber pesquisar jurisprudência, e incorporou isso sem drama.
(II) E tem o sênior que ainda resiste, que trata a IA como modismo ou como problema dos mais novos.
E os dois vão precisar encarar a mesma pergunta, que não é sobre usar ou não IA. Mas sobre o que seu líder espera de você com todo esse poder de produtividade nas mãos e por que os profissionais mais juniores vão te procurar agora. E por que isso não deveria ser apenas para validação técnica.
A cadeira de orientação mudou de lugar?
Historicamente, ser sênior é um sinal muito claro de ser consultado, não importa há quanto tempo a pessoa esteja na empresa ou no escritório. O cargo sênior implica diretamente ser um pilar de conhecimento, base técnica, olhar treinado, comportamento corporativo alinhado e até um pouco de gestão de pessoas.
Também era claro o que o mercado esperava: capacidade de bater o olho no contencioso e identificar o que não funciona ou saber identificar rapidamente o que não funciona e propor soluções, por exemplo.
Só que, em um mundo cada vez mais ágil, onde os profissionais mais novos precisam aprender a construir base para trabalhar com IA e usar essa tecnologia para soluções criativas, a cadeira de orientação do sênior deixa de ser predominantemente técnica e passa a abranger as mais diversas skills.
Há também um dado do próprio mercado jurídico que nos ajuda a entender as mudanças consideráveis nas skills de todos os profissionais da área. O State of the Industry 2026, do CLOC, mostra uma conta que não fecha mais da forma antiga: a demanda no jurídico segue crescendo, como sempre, mas apenas 32% dos departamentos esperam aumentar o número de advogados contratados. A mira do mercado está em absorver essa carga por eficiência com tecnologia, disciplina operacional e governança.
Referência, agora, se constrói além do técnico-jurídico convencional
Essa é a virada: perceber que o diferencial deixou de ser repertório, por si só, porque cada vez mais as pessoas aprendem a acessar o repertório das suas próprias máquinas. O que a maturidade profissional traz é outra coisa: a capacidade de transformar esse repertório em solução construída, algo seguro, escalável e capaz de absorver o crescimento do operacional, se necessário.
Se antes o sênior via o problema, apontava o caminho, auxiliava nessa construção e, muitas vezes, estava mais perto de ser um gestor de pessoas do que de alguém que põe a mão na massa, o mercado passa a enxergar o profissional mais experiente como alguém cada vez mais próximo de criar novos agentes, novas automações e de pensar em tudo de forma 360: escala, segurança, previsibilidade e custo.
Até pouco tempo, fazia sentido incluir mais uma etapa de validação em um fluxo, porque você entendia o processo e a liderança confiava na sua percepção, hoje a liderança quer entender como você vai fazer isso sem aumentar headcount ou a demanda do time, porque a IA faz trabalhos operacionais como ninguém.
Uma pesquisa recente da ACC, que ouviu 1.049 líderes jurídicos em 43 países, mostra essa direção: 63% dos líderes de departamentos jurídicos esperam manter o número de advogados estável, apostando na requalificação de quem já está no time, agregando valor e eficiência com IA.
Além disso, 47% afirmam que os próprios CEOs esperam que as lideranças jurídicas desenvolvam proficiência em tecnologia e IA. A mudança está aqui. A pergunta passa a ser: “o que você entrega com o que já tem”.
Da teoria para a prática
Em operações enxutas, “o operacional cresceu” parou de significar aumento de headcount e passou a significar: “o que você constrói para dar conta disso?”. É exatamente aqui que a IA no jurídico entra com peso, não como ferramenta de resumir e minutar, mas como um conjunto praticamente ilimitado de possibilidades para criar soluções que reduzem necessidades operacionais e encurtam meses de trabalho.
Vivi uma história parecida. Em uma agenda de 1:1, precisei avisar à minha liderança que estava super contente com a integração das áreas com a minha equipe, mas que isso tinha aumentado demais o operacional no time. Comentei que talvez a solução fosse delegar para alguns profissionais tarefas que antes não existiam, mas que agora faziam sentido para os reportes semanais e entregavam dados importantes para a operação.
Só que não saí satisfeita daquela conversa, porque aquela proposta ainda não fechava. Decidi mapear todas essas novas tarefas e pensar melhor. Dormi com o problema e fiquei com essa pergunta atravessada por alguns dias.
Até que ela virou outra pergunta: e se a saída não fosse dividir aquilo, mas resolver de outro jeito?
O pensamento estratégico mudou
Quando você constrói uma automação, um agente ou um fluxo, não está só resolvendo uma tarefa. Está criando algo que processa dados, toma decisão, que roda sozinho. Na prática seu líder hoje não espera apenas que isso funcione. Espera que você tenha pensado na segurança e na governança: quem tem acesso, o que fica registrado, quais dados sensíveis passam por ali e quem precisa aprovar cada etapa, mesmo que nada disso faça parte da sua formação em Direito.
Isso tem um nome fora do jurídico também. O relatório de tendências da Udemy Business de 2026 define fluência em IA não como saber operar a ferramenta, mas como saber prever os impactos dela para além dos imediatos e entender quando confiar e quando pausar. Ou seja, a competência que o mercado passou a chamar de fluência é justamente a que você exercita quando pensa na segurança do que constrói.
Será que a expectativa é que um profissional sênior de contratos seja sênior apenas em contratos? Ou espera-se que ele tenha maturidade para pensar em segurança e governança daquilo que constrói com IA, mesmo que “construir um RPA seguro” não estivesse em nenhuma ementa da faculdade ou da pós? A resposta, hoje, é a segunda. Construir uma solução que funciona é uma coisa, fazer uma que você consegue explicar, auditar e defender é outra bem diferente.
Governança é parte da entrega
No meu caso, fui colocar a mão na massa: estudar, aprender, entender novas alternativas para aqueles pontos que me pareciam velhos problemas, embora fossem novas tarefas da operação. Encontrei a saída, aprendi um pouco sobre programação utilizando a IA, coloquei de pé de oito a dez RPAs que faziam as funções que eu precisava e ganhei um tempo operacional que antes estava faltando. Eu fiquei quase feliz com aquilo.
Quase porque tinha certeza que aquelas soluções eram escaláveis, mas não conhecia as melhores estratégias de arquitetura de códigos, não dominava as regras de Segurança da Informação para aqueles desenvolvimentos e também não tinha mapeado, naquele momento, quais eram os profissionais e áreas da empresa que precisavam estar envolvidos naquelas aprovações.
Eu tinha grandes chances de ganhar escala, mas, para isso, precisava pensar na governança e na segurança. Fui atrás de todos esses pontos e, só depois, passei a ter duas bases sólidas:
(i) Aprovação e conhecimento para seguir e escalar
(ii) Um caminho mapeado de como todo o time precisa fazer quando criar alguma solução parecida.
O que faz alguém ser referência hoje
Além de construir com IA, você precisa, inevitavelmente, pensar na segurança, na governança, na escalabilidade e no custo. Porque é isso que esperam de você: que desenvolva soluções e mostre os impactos para além dos efeitos diretos.
É justamente isso que faz com que os profissionais mais juniores do time continuem te procurando. Agora, eles irão aprender com você também sobre os macros da solução, sobre o que vem depois que ela passa a funcionar.
Não é a automação que vira referência, mas o julgamento por trás dela.
| Para o líder do outro lado O que mudou para o seu sênior é que a régua deixou de ser “entender o problema e apontar o caminho” e passou a ser “erguer uma solução segura, escalável e pensada por inteiro”. Não é mais apenas sobre o quanto ele sabe ou quantas pessoas ele coordena; é sobre o que ele constrói e consegue defender. E os profissionais mais juniores continuam aprendendo com ele, só que agora essa orientação está mais relacionada à maturidade corporativa, não só técnica. Reconhecer essa mudança é o que permite cobrar do seu sênior o que faz sentido hoje e valorizar o que ele está construindo. |
Do hype ao método: o que você pode fazer agora
O hype é usar a IA. Já o método envolve três principais pontos: construir, blindar e documentar o que se constrói.
Os prompts abaixo são pontos de partida, não receitas prontas. Eles são o começo de uma conversa com a IA, que você vai refinando conforme a sua realidade, exatamente como eu fiz quando precisei aprender o que ainda não sabia.
Comece ainda esta semana
| 1. Construa algo Da próxima vez que perceber o surgimento de novas demandas operacionais ou a necessidade de deixar alguma atividade operacional para focar no estratégico, faça esta pergunta à IA antes: “Tenho uma tarefa que hoje consome meu tempo e que eu pensaria em delegar: [descreva a tarefa e o que ela envolve]. Antes, quero saber se dá para eu mesmo automatizar isso, considerando que não sei programar.Me diga com honestidade se vale a pena automatizar ou não, qual seria o passo a passo e por onde começar. Além disso, aponte desde já quais cuidados preciso ter em termos de segurança e de dados sensíveis para construir essa solução com segurança desde o início.” |
Nos próximos meses
| 2. Blinde o que você já construiu Construiu uma automação e ela funciona? Ótimo. Mas funcionar é apenas metade do caminho. Antes de escalar, use a IA para revisar o que você fez e descobrir o que ainda não sabe sobre a segurança da solução: “Construí uma automação que faz [o quê] e acessa [qual dado]. Quero blindá-la antes de escalar. Primeiro, pensando em segurança da informação e governança, avalie a arquitetura do que eu construí: usei boas práticas de segurança? Onde estão os pontos frágeis? O que um especialista faria diferente? Depois, me ajude a montar um documento de governança dessa solução: quais dados sensíveis passam por ela, quem deveria ter acesso, o que precisa ficar registrado, e quais áreas, segurança da informação, privacidade, compliance, precisam validar isso antes de escalar. Me responda em duas partes: a auditoria técnica primeiro, o documento depois. Em linguagem acessível para quem não é da área técnica.” Esse retorno da IA é o seu primeiro filtro, não o substituto da validação real com o time de Segurança da Informação. Ele mostra o que perguntar e o que revisar antes de levar para quem, de fato, aprova. |
Para desenvolver ao longo da carreira
| 3. Documente o que você construiu, não só o código, mas também o raciocínio Uma automação sem documentação morre com quem a criou. O sênior que constrói e desaparece deixa um problema; o que constrói e documenta deixa um ativo. Depois de blindar a solução, registre: “Construí uma automação no meu trabalho e quero criar um playbook completo dela, para que qualquer pessoa da equipe entenda, mantenha e confie no que ela faz, mesmo sem mim. Me ajude a estruturar esse documento contemplando: o que a automação faz e qual problema resolve; como ela funciona, passo a passo; quando e com que frequência ela roda; quais dados ela acessa e o que faz com eles; como ela foi arquitetada e por que essas escolhas foram feitas; quem validou e quem precisa ser acionado se algo falhar e quaisquer outros pontos relevantes que eu não tenha abordado diretamente. Organize o conteúdo de forma que sea útil tanto para quem é técnico quanto para quem não é.” Esse é o documento que transforma o que você fez em algo que a empresa pode manter. É onde a sua visão, o porquê das escolhas, ficam registradas. |
Artigo assinado por Manuella Gelli, Legal Operations & IA