Robô! Vilão ou Herói?

Por Arthur Hamann Pereira
Diretor Comercial | Fácil

Na Fácil, não gostamos do termo “robô” da forma como vem sendo utilizado por algumas empresas de software que oferecem soluções para o segmento jurídico.

Para começar, será necessário dissecar alguns termos importantes utilizados na área de informática, e que se confundem, sendo genericamente e erroneamente chamados de robôs.

AGENTES AUTOMATIZADOS

Um programa que cria prazos automaticamente é um robô? E que conduz tarefas por uma fila, até o responsável pelo passo atual? E que realiza cálculos e gera documentos com base em formulários? E que traz informações de uma fonte externa para seu sistema? Enfim, qual a diferença entre “Importação de dados” e “Robô para importação de dados”? Um é melhor que o outro?

Uma empresa de softwares tem como principal objetivo desenvolver sistemas ou programas que possam desempenhar tarefas que auxiliem as pessoas em suas atividades. Analistas e programadores passam suas vidas desenvolvendo algoritmos. E nesse caso, é denominado “agente automatizado”, o algoritmo construído que substitui um humano na execução de uma atividade.

Os agentes automatizados podem ser categorizados segundo determinadas características. De acordo com o papel que desempenham e como desempenham.

Alguns agentes automatizados podem ser chamados de “robôs”, mas nem todos. Robô é um tipo de agente automatizado, que desempenha um papel bem característico. Esse termo, robô, não deveria ser utilizado para todos os agentes existentes. Mesmo estando na moda.

ROBÔS, PRODUTOS OU SERVIÇOS?

A indústria automobilística, por exemplo, já emprega robôs há algum tempo, e pode-se dizer que têm contribuído muito para o desenvolvimento daquela área. Mesmo assim, quem argumentaria que se deve inserir máquinas de aço pesando toneladas dentro dos escritórios (além de, talvez, uma copiadora multifuncional, que, inclusive, está saindo de moda)?

Recentemente a informática tem se apropriado do termo “robô”, mesmo que, tradicionalmente, tenha apenas criado programas para operar os robôs de óleo e metal. Os novos robôs criados pela (e para) a informática são intangíveis, o que aumenta ainda mais a confusão.

Um robô, assim como um algoritmo, é criado para realizar uma tarefa. O fator importante é a realização da tarefa. A existência, ou não, do robô, é irrelevante. A tarefa é bem realizada? O custo é bom? É escalável? Se sim, então se tem interesse neste produto ou serviço. O robô não se confunde com o produto ou serviço. É o meio pelo qual a tarefa é automatizada.

O desenvolvimento de robôs no âmbito da informática, pode ser encarado como um divisor de águas importante. Novas tarefas passaram a ser viáveis, operações que antes eram apenas executadas por humanos passaram a ser realizadas por programas. Não quer dizer que todas as tarefas serão melhores com robôs ou que as soluções automatizadas anteriores serão necessariamente substituídas. Onde os robôs se encaixam no cenário atual de automação de tarefas?

INTEGRAÇÃO OU ACOPLAMENTO ENTRE SISTEMAS

Integrar sistemas é acoplá-los de alguma forma para que os dados sejam compartilhados. É criar um “diálogo” entre sistemas. Embora possa ser também um monólogo. Cria-se uma forma comum de comunicação entre os mesmos. Uma linguagem comum.

Um exemplo de integração, é quando um sistema jurídico envia valores de processos judiciais para serem contabilizados em um ERP da corporação. Existe um formato pré-determinado de como essas informações devem ser enviadas e recebidas. Algoritmos, em ambos os produtos, são escritos para tratarem esse processo relacional. Existe consenso, consentimento, regras de segurança são respeitadas e formatos de troca estabelecidos.

Alguns sistemas dispõem de APIs (Application Programming Interface), que nada mais são do que padrões pré-determinados para as integrações. Como um contrato de adesão, em que as cláusulas não podem ser mudadas. Esses algoritmos não utilizam uma “interface” que possa se parecer com a mesma interface que um humano utilizaria. São formatos próprios para troca de dados entre máquinas.

Nestes casos, é comum a comercialização dos ditos “robôs” para ligar duas APIs de sistemas distintos. Esses agentes automatizados não deveriam ser chamados de “robôs”, pois trata-se apenas de um canal de comunicação entre os dois sistemas.

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL – APRENDIZADO DE MÁQUINA

Na era do Machine Learning, os departamentos de marketing têm utilizado fotos de robôs para expressarem o comportamento de uma nova geração de algoritmos; agentes automatizados diferenciados. O problema é que um usuário leigo é levado a um entendimento errôneo de que já existem computadores que “pensam”, raciocinam e que, logo, chegará no escritório e haverá um robô humanóide ocupando sua cadeira. De fato, algumas tarefas, antes impossíveis de serem feitas pelos modos tradicionais, agora são possíveis com esses novos algoritmos. Eles “aprendem” com dados, mas, ainda é necessária supervisão humana.

Esses novos agentes automatizados, diferentes dos algoritmos tradicionais, se comportam de maneira bem diferente.

Nos algoritmos tradicionais existe uma entrada de dados, um processamento da informação e uma saída. Os dados são introduzidos no computador, são processados e um resultado, conforme previsto anteriormente pelos analistas, programadores e usuários especialistas, é “cuspido”. Esses algoritmos tradicionais são escritos com regras pré-definidas. Podem ser amplamente testados e dão sempre o mesmo resultado. São ótimos para sistemas de folha de pagamento, cálculos de correção monetária e outros nessa linha.

No caso dos algoritmos de aprendizado de máquina, o fluxo é diferente. Entram os dados, os resultados desejados, e são produzidos “modelos” (que se pode chamar de outros algoritmos), que tratarão novos dados segundo esses modelos, num processo iterativo.

Em outras palavras: quando os advogados leem as publicações nos diários oficiais, devem verificar do que se trata e de quais providências devem ser tomadas e em que prazos. Um estagiário que está aprendendo o ofício, pode observar um profissional mais experiente e vai assimilando. Depois de um tempo, já saberá o que é uma juntada de documentos, uma sentença, a necessidade de perícias e outros procedimentos. À medida que as publicações se repetem, ele saberá o que fazer. Até que venha algo realmente novo e diferente, e necessite perguntar para alguém experiente de como tratar essa nova informação. O estagiário continua aprendendo. Até que em determinado momento, pode até ter senso crítico e descobrir falhas no esquema, sugerir alternativas e outras medidas. As maravilhas da mente humana.

No caso dos agentes automatizados de “aprendizado de máquina” o processo é semelhante, mas não igual.

Esses algoritmos aprendem da seguinte forma: entrega-se para eles milhares de textos de publicações junto com o resultado da classificação por advogados humanos. Com base nessas informações, eles criam modelos de como devem ser classificados os novos textos que chegaram. E quando um texto novo é dado, eles verificarão em que grau se enquadra nesses modelos de aprendizado. Podem até sugerir duas ou três opções com base em percentuais e adotarem aquela mais próxima de cem por cento. Se verificarem que o percentual é muito baixo ou não existe uma correspondência confiável, “pedem” ajuda para um humano que fará a classificação correta; assim vão aprendendo. O que ocorre é que esses algoritmos ainda não têm senso crítico. São cegos e enxergam somente os dados entregues a eles. Um algoritmo classificará uma informação tão bem quanto for ensinado, mas não avaliará se sua resposta, de fato, se enquadra com a situação, se a circunstância mudou ou se a resposta é ”estranha”.

A Inteligência Artificial representou mais um avanço na robotização. Mas também pode ser aplicada a outras formas de automação. Ninguém diria que o reconhecimento facial da Apple ou da Microsoft é um robô, por mais que use modelos baseados em IA para o reconhecimento facial, mas pode-se imaginar Siri (Apple), Alexa (Amazon), Cortana (Microsoft) como pessoas, andando e realizando tarefas no mundo virtual. Aqui é aceitável a foto de um “robozinho”, pois o algoritmo está imitando e se comportando como um humano.

ACESSANDO SITES COMO SE FOSSE UM HUMANO NA MESMA INTERFACE

Existe outro tipo de agente automatizado que pode se encaixar melhor ainda na denominação de “robô”, pois também imita um humano em suas tarefas. É o caso de algoritmos, agentes automatizados, que acessam sites da web com o objetivo de coletar dados, ou, até mesmo, inseri-los.

Nesse caso, o algoritmo está fazendo o que tecnicamente se chama de Data Mining, que traduzido para o português, significa “Mineração de dados”. Na prática, o robô foi programado para entrar em cada site, localizar a informação desejada com base em regras específicas e retornar para o programa, repetindo esse processo conforme a necessidade. Quando se deseja trazer uma informação específica, no entanto, pode ser necessário programar o robô para cada site separadamente, e monitorá-lo constantemente, para que a informação retornada seja confiável.

Mas atenção, se o site mudar o leiaute, esse algoritmo pode não funcionar de acordo. Pois espera as informações sempre no mesmo lugar, na mesma ordem e do mesmo jeito. Deve ser monitorado continuamente. E alterado quando necessário, principalmente quando o site mudou; alterou a ordem de campos, incluiu novas informações.

A denominação de “robô” parece condizente, pois o site que está sendo acessado não saberá se é um humano ou um algoritmo. O agente automatizado comporta-se da mesma forma que um humano.

AUTOMATIZAÇÃO X ROBOTIZAÇÃO

Concluindo: toda robotização é uma automatização, mas nem toda automatização é uma robotização. Um algoritmo escrito para realizar a correção monetária de um processo tributário por determinado índice, não é uma robotização e sim, a automatização de uma rotina que seria desempenhada por um ser humano.

Por causa da intangibilidade, os robôs da informática se confundem com os próprios programas. Prefere-se a seguinte distinção: se for construído um algoritmo que acesse uma interface que, em geral, seria utilizada por um humano, ou seja, estiver simulando ou “parecendo” com um humano, nesse caso, pode-se chamar de “robô”. Esse algoritmo seguirá os mesmos procedimentos que um ser humano faria para obter a informação. Do contrário, é uma automação tradicional, realizada por um programa de computador.

 

Fonte: Revista Gestão Jurídica - 10ª Edição - Ano 2019


Publicado em: 17/05/2019

Entre em contato

Onde conheceu a Fácil?